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Quanto cobrar por sessão de psicologia: como definir seu valor sem chutar

Manuel Bahamonde5 min de leitura

A pergunta chega quase sempre na forma errada: “quanto os outros estão cobrando?”. O preço do colega diz alguma coisa sobre o mercado da sua cidade e nada sobre a sua conta de luz, a sua carga de atendimentos e o quanto você precisa tirar por mês.

Existe um jeito de chegar a um número que você consegue defender. São quatro passos.

Antes: o CFP não fixa preço

Não existe tabela oficial de honorários com valor obrigatório. O que existe são tabelas referenciais, como a tabela de honorários publicada pela FENAPSI em conjunto com o CFP, que serve como orientação, não como teto nem como lei. O Código de Ética Profissional do Psicólogo trata da fixação de honorários e veda usar o preço do serviço como forma de propaganda. Cobrar abaixo de forma sistemática, a ponto de aviltar a profissão, é que pode ser questionado.

Ou seja: a régua é sua, dentro de um intervalo razoável para a sua região e a sua formação.

Passo 1: descubra quanto custa uma hora sua

Some tudo que sai da sua conta por causa do consultório, por mês. Se você ainda está montando o consultório, a lista de custos iniciais está em Como abrir um consultório de psicologia:

ItemExemplo
Aluguel da sala ou coworkingR$ 900
Anuidade do CRP (dividida por 12)R$ 60
SupervisãoR$ 400
Formação continuada (dividida por 12)R$ 250
Internet, telefone, água, luzR$ 180
Software de gestãoR$ 39
Contador (se tiver PJ)R$ 200
Marketing, site, anúnciosR$ 150
Custo fixo mensalR$ 2.179

Agora as horas faturáveis: as horas que alguém efetivamente paga. Aqui mora o erro mais comum: as pessoas dividem pelo total de horas trabalhadas, mas nem toda hora trabalhada é hora paga. Supervisão, estudo, gestão, deslocamento e buracos na agenda não faturam.

Um psicólogo com 20 sessões por semana tem cerca de 80 sessões por mês. Descontando férias, feriados e faltas, trabalhe com 72.

Custo por sessão: R$ 2.179 ÷ 72 = R$ 30,26. Esse é o piso absoluto: abaixo disso você paga para atender.

Passo 2: defina a retirada que você precisa

Qual valor líquido você quer tirar por mês? Suponha R$ 7.000.

Sobre esse valor incidem impostos. Como autônomo pessoa física, o carnê-leão segue a tabela progressiva do IRPF e pode chegar a 27,5% na faixa mais alta, além do INSS. Como funciona o recolhimento e o que abater no livro-caixa está em Recibo de psicólogo e imposto de renda. Como PJ no Simples Nacional, a carga costuma ficar bem menor, a depender do enquadramento. Para não errar para baixo, reserve cerca de 20% na simulação inicial e refine com seu contador.

Retirada bruta necessária: R$ 7.000 ÷ 0,80 = R$ 8.750.

Faturamento alvo: R$ 8.750 + R$ 2.179 = R$ 10.929.

Valor por sessão: R$ 10.929 ÷ 72 = R$ 151,79.

Arredondando: R$ 150 a R$ 160 por sessão.

Passo 3: confronte com o mercado

Agora — e só agora — olhe para fora. Levante o valor praticado na sua cidade por profissionais com formação e tempo de atuação parecidos com os seus. Três cenários:

  • Seu número bateu com o mercado. Ótimo, siga.
  • Seu número ficou acima. Pergunte o que sustenta o prêmio: especialização, público específico, resultado comprovado. Se não houver, o problema pode ser custo alto ou agenda vazia demais.
  • Seu número ficou abaixo. Não comemore. Provavelmente você subestimou algum custo ou está contando com uma agenda cheia demais. Como enchê-la de fato está em Como conseguir pacientes na psicologia.

Passo 4: monte a política, não só o preço

Preço isolado gera negociação a cada paciente. Política gera previsibilidade — e ela entra por escrito no contrato terapêutico. O preço é uma das cinco áreas tratadas em Gestão de consultório de psicologia: o guia completo.

Valor cheio. O da tabela, para pacientes novos.

Valor social. Quantas vagas você reserva, com qual critério e qual valor. Deixe um número fixo — por exemplo, 4 das 20 sessões semanais. Sem cota definida, o valor social vira o valor padrão.

Pacote ou avulso. Cobrança por sessão é mais simples; mensalidade fixa (quatro ou cinco sessões no mês) dá previsibilidade de caixa e reduz falta. Se optar por mensalidade, defina o que acontece no mês com cinco terças-feiras.

Política de falta. A regra mais comum: cancelamento com menos de 24 horas é cobrado. Ela só funciona se estiver combinada por escrito na primeira sessão e for aplicada sempre.

Reajuste. Data fixa, uma vez por ano, avisada com 30 dias de antecedência. Reajuste caso a caso, quando a coragem aparece, é o que faz o psicólogo ficar cinco anos no mesmo valor.

Como comunicar o valor

Duas frases, sem pedido de desculpas e sem justificativa longa:

“A sessão é de 50 minutos e o valor é de R$ 160. Reservo algumas vagas com valor reduzido; se for o seu caso, a gente conversa sobre isso agora.”

Depois, silêncio. A pausa é mais eficaz que qualquer argumento.

Três erros que custam caro

Não reajustar por medo de perder paciente. Um reajuste de R$ 10 em 30 pacientes são R$ 300 por mês. A perda de um ou dois pacientes ainda deixa você no lucro — e raramente essa perda acontece.

Não cobrar falta. Vinte por cento de faltas em uma agenda de 72 sessões são 14 sessões perdidas por mês. No exemplo acima, R$ 2.100 de faturamento que simplesmente evaporam. Como montar e aplicar a política de cancelamento está em Como organizar a agenda e reduzir faltas.

Não saber o próprio número. Sem controle do que entrou, quem pagou e quem está devendo, qualquer discussão sobre preço é chute. Antes de reajustar, feche um mês de verdade.

O GestorPsicologo faz esse fechamento sozinho: mostra quanto entrou, quem está em aberto e qual foi a ocupação real da sua agenda — os três números de que você precisa para decidir o próximo valor com base em fato, não em sensação.

Fontes

  1. Código de Ética Profissional do Psicólogo (Resolução CFP nº 010/2005) — Conselho Federal de Psicologia
  2. Tabela referencial de honorários da Psicologia — FENAPSI, em conjunto com o Conselho Federal de Psicologia
  3. Carnê-Leão — tabela progressiva e recolhimento mensal — Receita Federal do Brasil

Normas e regras tributárias são revisadas periodicamente. Confirme a redação vigente na fonte antes de tomar uma decisão.

Escrito por

Manuel Bahamonde

Fundador do GestorPsicologo

Construiu o GestorPsicologo depois de acompanhar de perto a rotina administrativa de consultórios de psicologia. Escreve sobre a parte do consultório que a formação clínica não cobre: agenda, prontuário, preço e imposto.

contato@gestorpsicologo.com.br

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